


Um amador de botânica, por muito que se entusiasme com as raridades, deve manter igualmente os olhos bem atentos às plantas vulgares. Porque, afinal, não é aquela planta de que só sobrevivem escassas populações em locais sigilosos que faz o carácter de um espaço natural. As plantas comuns preparam a casa para as outras, mais esquivas; são amigas que sabemos onde e quando reencontrar.
Das duas dezenas de espécies de Linaria existentes em Portugal, a L. triornitophora, cujo território de origem abrange ainda o oeste de Espanha, é a mais disseminada na metade norte do nosso país. É também, sem favor, a mais vistosa, não só pela beleza das suas flores - as maiores do género, atingindo os 5,5 cm de comprimento -, como também pela sua envergadura. É uma planta pouco ou mesmo nada ramificada, de caule por vezes inclinado, com as folhas sésseis e pontiagudas dispondo-se, em grupos de três ou quatro, em arranjos que fazem lembrar o colarinho de um bobo da corte. Tão peculiares são as folhas que, mesmo na ausência das flores (que surgem durante um longo período, de Abril a Setembro, e brotam em cachos na extremidade das hastes), a identificação da planta é imediata.
Quem se lembra dos povos bárbaros - Vikings, Godos - nos livros de Astérix sabe que não era por copos nem por canecas que os guerreiros se embriagavam nos banquetes homéricos com que encerravam as suas campanhas. A semelhança na forma entre os chifres então usados como recipientes para líquidos e os esporões que caracterizam as flores do género Linaria faz suspeitar de uma afinidade funcional. De facto, esses esporões são reservatórios de néctar, promessas de festa rija para os insectos polinizadores. E, parecendo embora especialmente concebidas para borboletas com trombas alongadas, as flores das linárias atraem também abelhas e outros insectos indiferenciados.
Os habitats preferidos da Linaria triornithophora são os bosques mais ou menos sombrios e a vizinhança dos cursos de água. Já a encontrei por quase todo o noroeste do país, por vezes em locais de ecologia depauperada, como os eucaliptais ou as matas de acácias. No Porto, concelho quase integralmente urbanizado, sem qualquer parcela incluída na RAN ou na REN, subsiste uma vigorosa população de L. triornitophora na Quinta de Bonjóia, mesmo ao lado da Via de Cintura Interna. Motivo mais do que suficiente para as minhas duas ou três visitas anuais a esse bosquezinho triste, dominado por eucaliptos mas com alguns sobreiros e plátanos a quebrar a monotonia.
Porto, 8 de Fevereiro de 2010
Bosques, matagais, vizinhança de cursos de água
Noroeste da Península Ibérica, em Portugal apenas no Norte e Centro
Março a Setembro
Nenhum.
- Quinta de Bonjóia (Porto)
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