


Uma desconhecida da flora nacional
Pouco conhecido, este narciso é um dos verdadeiros tesouros da flora nacional. Trata-se de uma espécie endémica de Portugal, também referida por alguns autores para o sul de Espanha, ainda que a sua ocorrência não tenha sido confirmada até ao presente. Apesar da sua vistosa floração é uma espécie bastante esquiva e durante alguns anos presumiu-se que pudesse estar extinta, devido ao desaparecimento das populações até então conhecidas. Somente na década de 90, o botânico C. Pinto Gomes assinala a sua redescoberta, em pleno coração do Algarve.
Trata-se de uma planta bulbosa, cujas primeiras folhas surgem após as chuvas outonais, mantendo-se até finais de Abril/início de Maio. As folhas, 1 ou 2, apresentam-se em geral, erectas, lineares e semi-roliças. Podem alcançar até 50cm de comprimento e 0,3 de largura, mas são frequentemente menores. O escapo floral varia entre os 20-50cm de altura e no seu topo podem-se encontrar 1 a 5 flores amarelas, muito vistosas e perfumadas. Os segmentos do perianto (tépalas) oscilam entre os 0,6 e os 0,9 cm, são ovados a elípticos, ligeiramente apiculados e a coroa tem a margem sinuada a crenulada. O tubo hipantial de N. willkommii é recto e esverdeado, com 1,2 a 1,5cm de comprimento. O período de floração pode desenrolar-se desde o início de Fevereiro até final de Março, com um pico a ocorrer geralmente no início de Março. A floração de um indivíduo pode durar cerca de duas semanas e durante esse período as flores libertam um perfume bastante intenso. O fruto é uma cápsula com cerca de 10 sementes globóides e pretas, decorrendo a frutificação dos finais de Março aos finais de Abril.
De aspecto muito semelhante a N. jonquilloides e a N. fernandesii, distingue-se destas pelo seu menor porte, nomeadamente pelas flores mais pequenas, sendo o tubo hipantial bastante mais reduzido.
Coloniza diferentes tipos de margens de cursos de água: taludes com textura argilo-arenosa revestidos por vegetação herbácea, reentrâncias de rochas em loendrais ou ainda, sob coberto de galerias ripícolas mistas com freixos e loendros. Actualmente a espécie apresenta uma distribuição muito circunscrita, conhecendo-se uma única população, com cerca de 30 núcleos, numa extensão de 4-5km ao longo da ribeira de Quarteira (Carapeto, 2006). No entanto, exemplares em herbário recolhidos próximo de Loulé (1964) e S. Brás de Alportel (1971) provam que a espécie teve, num passado recente, uma distribuição mais ampla na região.
A espécie parece reproduzir-se bem por semente, tendo-se registado um elevado sucesso de germinação em condições controladas, pelo que as causas para o seu declínio generalizado continuam pouco conhecidas. A expansão de canaviais densos, a predação das suas flores e frutos e a perturbação humana nas margens foram alguns dos factores de ameaça assinalados por Carapeto (2006), mas é possível que o seu declínio possa estar relacionado com alterações no regime hídrico nas ribeiras do Algarve central, nomeadamente a diminuição de caudais no Inverno. Apenas o destino da população conhecida nos arredores de Loulé é mais claro, pois terá desaparecido na sua totalidade, com o aterro da ribeira para alargamento de uma estrada, no início da década de 90.
A reduzida área de distribuição deste endemismo torna-a numa espécie rara e extremamente vulnerável a factores de ameaça, ainda assim Narcissus willkommii não apresenta qualquer estatuto de conservação, tendo mesmo sido "esquecido" dos anexos da Directiva 92/43/CEE, talvez por se acreditar que a espécie pudesse estar extinta. Uma prospecção efectuada em 2006 em vários cursos de água do Algarve central, não detectou novos núcleos populacionais, pelo que, apesar da única população conhecida se encontrar em área protegida pela Rede Natura 2000, o forte declínio que se verificou na segunda metade do século XX, não permite encarar a sobrevivência deste endemismo como assegurada.
Bibliografia consultada
A. Carapeto (2006) Avaliação de condicionantes ambientais a Narcissus willkommii (Samp.) A. Fernandes - Bases para estratégias de conservação. Tese de Mestrado em Gestão e Conservação da Natureza. FCMA - Universidade do Algarve
C. J. Pinto Gomes & R.J.P. Paiva Ferreira (2005) Flora e Vegetação do Barrocal Algarvio (Tavira-Portimão). Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve. Faro
10 de Dezembro de 2009
Margens húmidas de cursos de água não permanentes.
Barrocal Algarvio. Algarve.
Fevereiro a Março
Nenhum.
- Ribeira de Quarteira.
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