


Uma planta marcada pelo seu habitat.
O mar, o vento e o Arquipélago das Berlengas. Estamos no oceano Atlântico, algumas ilhas pequenas, alguns rochedos quase sem vegetação. Os ventos, constantes do quadrante Norte, fortes vindo do Sul no Inverno, o nevoeiro, a neblina e a salsugem impregnam as ilhas. Estamos isolados, mas perto. O mar não é profundo nesta zona, estamos na plataforma continental e, ao longo dos tempos geológicos, o arquipélago esteve em contacto com o continente. O ambiente litoral está sujeito a flutuações, fluxos, variações, está aberto a migrações.
Armeria berlengensis. Um pequeno arbusto densamente ramoso, compacto, com forma de manjerico (em termos técnicos: um caméfito lenhoso pulvinado) que cresce agarrado às fendas das rochas, nas falésias. Os ventos constantes passaram por aí e moldaram as plantas perenes. Esta característica, a primeira que salta à vista quando se vê a Armeria berlengensis ao longe é a marca do ambiente; na ausência dos ventos os ramos crescem, laxos, e a planta perde o aspecto compacto de coxim.
Nos indivíduos maiores a forma regular de manjerico foi sendo achatada, por efeito do vento, quebra dos ramos ou senescência que conduz à perda de vitalidade dos ramos. Infelizmente a forma tão peculiar de coxim é atraente para as gaivotas e não são raros os ninhos (a colónia de gaivotas-argênteas (Larus michahellis) presente na Berlenga é uma das maiores do litoral da Península Ibérica); os dejectos, calor e quebra mecânica dos ramos e das hastes das inflorescências ocasionados pela nidificação produzem uma aceleração da degradação da parte central da planta.
As folhas marcescentes acumulam-se ao longo dos ramos; as rosetas de folhas novas formam-se na extremidade dos ramos e uma haste floral desenvolve-se anualmente em cada roseta. Volta a fazer-se sentir a influência dos ventos: o tamanho das hastes florais pode variar muito dentro do próprio indivíduo consoante a exposição ao vento; inclusive podem nem chegar a formar-se. Vemos portanto que, quanto mais ramos houver, potencialmente mais hastes florais haverá. Temos então um pequeno arbusto que pode atingir dimensões razoáveis nos indivíduos mais idosos de 20 ou 30 anos, até 1m de diâmetro ou mais; com estas dimensões alguns indivíduos podem apresentar até 700 hastes florais viáveis na altura da floração.
Este aspecto demonstra que os indivíduos mais idosos, aqueles que melhor sobreviveram ao longo dos anos, vão produzir mais sementes; ou seja, dentro da quantidade anual de sementes produzidas pela população, a percentagem de sementes provenientes dos indivíduos mais idosos vai ser mais importante que a dos indivíduos jovens, com poucos ramos e portanto poucas hastes florais; de ano para ano são produzidas, em grande número, sementes oriundas dos mesmos indivíduos.
Esta gerontocracia, dominância de poucos indivíduos velhos, poderia ser um risco para a população dado que implica que, anualmente, ocorre uma contribuição muito forte do mesmo material genético; ora as condições ambientais que permitiram que uma geração singrasse podem não ser as mesmas algumas décadas depois. A predominância dos adultos é também reforçada por uma mortalidade juvenil muito elevada no primeiro ano de vida, nomeadamente por efeito da seca estival.
Ora, o que garante a sobrevivência das populações, face às flutuações ambientais é a existência de uma reserva de diversidade. A contrapartida do conservadorismo génético da gerontocracia é a existência de um mecanismo subtil e extremamente eficaz de incompatibilidade que impede a autopolinização e obriga à reprodução cruzada, garantindo deste modo a ocorrência de diversidade genética.
Estas características encontram-se também, nos seus traços gerais, nas outras Armerias ibéricas e das regiões temperadas de Europa. Alias, nas Armerias, raramente haverá um único carácter que permita identificar inequivocamente uma espécie. O que interessa é a combinação de vários caracteres no conjunto de uma população.
O que é próprio então da Armeria berlengensis? Destaca-se a enorme amplitude dos caracteres vegetativos, nomeadamente folhas e brácteas, numa área geográfica tão reduzida. Esta amplitude poderia traduzir vários fenómenos: estarmos em presença de uma população próxima do grupo ancestral das Armerias (o que dificilmente se poderá afirmar dado que as Armerias constituem um Género em especiação activa; para a zona Oeste da Península Ibérica não foi detectada, com base em caracteres moleculares, uma hierarquia que pudesse indicar um grupo com características ancestrais); ou então a população do Arquipélago das Berlengas está em contacto com outras populações exteriores e por fenómenos de hibridação ocorre uma maior diversidade genética que se traduz numa maior amplitude dos caracteres; ou então a variabilidade é sobretudo fenotípica e a influência do ambiente é determinante na amplitude da plasticidade morfológica.
28 de Setembro de 2009
Falésias de granito ou gneiss, cascalheiras. Solo de pH ácido.
Endémica do Arquipélago das Berlengas. Peniche. Estremadura.
Abril a Maio
Toda a sua área de distribuição está incluída na Reserva Natural das Berlengas - ICNB.
Anexo II da Directiva Habitats.
- Ilha Berlenga - seguindo o trilho que passa pelas falésias do Carreiro do Mosteiro, Carreiro dos Cações, Carreiro da fortaleza.
- Visíveis de barco nas falésias dos Farilhões, Estelas, Ilhéu da Inês, O-da-Velha, Ilhéu Maldito.
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