Datura stramonium
© Ana Júlia Pereira  
Datura stramonium
© Ana Júlia Pereira  

 

Datura stramonium L.

Solanaceae | figueira-do-inferno

Marco Jacinto

A Datura stramonium é uma majestosa herbácea. Não se estranhe se a vontade de uma procura não coincida com o seu encontro. Apesar de comuns no nosso país, há anos que desaparecem dos sítios onde nos habituámos a vê-las, ou sucede apenas um ou outro indivíduo enfezado a gerir os stocks da vida encapsulado à espera de melhores dias.

Formar os melhores exemplares leva o seu tempo. Procure-se nos finais do Inverno, com a pupila tão dilatada quanto o provocam os alcalóides da planta quando ingerida, e pode ser que já venham surgindo plântulas nas regiões onde o beijo geado do Inverno não fira a gesta da Primavera. Caso contrário há que esperar, não é vulnerabilidade, são delicadezas tropicais.

O género Datura é composto por onze espécies distribuídas pelo Sul da América do Norte e região Central e Sul Sul-americana. O nome do Género tem origem vernacular na Índia. Durante anos a discussão em torno da sua origem foi controversa. Dióscorides, tratadistas contemporâneos e anteriores desconhecem-na. Não admira portanto, que na antiguidade para o Jardim do Hades escolhessem o Asfodelos, planta mais adequada à sombra desse mundo inferior onde Pluto também reinou.

Com a liberalização do inferno, durante o período medieval, os arranjos paisagísticos do metafísico beneficiavam, não só da riqueza material do Novo-Mundo, mas também da riqueza vegetal. E a Datura é colocada no Inferno com nome de figueira em países como Portugal e Espanha, tendo o último, segundo Fournier no seu «Plantes Médicinales», sido responsável pela sua introdução na Europa em 1577 proveniente do México, passando-a mais tarde aos Jardins Botânicos da Itália e da Áustria.

Outros dos nomes vulgares por todo o mundo são súmulas dos usos e costumes em que se empregou; como hipnótico em rituais, e como nervino contra a tosse convulsiva, enfisema pulmonar, reumatismo articular e sobretudo a asma; alusões ao seu vigoroso cheiro ou utilidade no afastamento de ratos e toupeiras.

Atente-se no robusto caule, verde, praticamente glabro como a restante planta, e será inevitável a comparação com o pecíolo de certas aráceas dos trópicos. Cresce, por vezes mais de um metro, com ramificação dicotómica e nele se prendem pecíolos medianamente compridos, com folhas ovado-acuminadas e sinuado-dentadas.

As flores são erectas, com uma corola tubular branca ou mais raramente azulada que pode atingir os dez centímetros, dividida em cinco lóbulos agudos, pouco profundos e com pregas longitudinais. O cálice possui uma base persistente sendo a parte restante transversalmente caduca.

O fruto é um belíssimo objecto natural, na forma de cápsula ovóide com o tamanho duma noz ou maior. Ergue-se, eriçado de numerosos acúleos verdes, sobre um pé e abre na parte superior através de quatro valvas. No seu interior encontramos duas cavidades cada uma delas, por sua vez sub-dividida noutras duas, repletas de pequenas sementes reticuladas de côr preta.

A Datura é assaz nitrófila, e apesar da ruderalidade dos sítios que escolhe como escombreiras, bordas de terrenos e edificações agrícolas, em substratos argilosos ou arenosos, exige destes razoável frescura.

Segundo Pereira Coutinho, na Flora de Portugal a floração dá-se entre Junho e Outubro, o período é largo mas ainda podemos dilatá-lo para Maio ao Sul do chão pátrio.


5 de Outubro de 2011


sinopse técnica

Ecologia

Vegetação ruderal e viária; em bermas de estradas, entulhos de obras, aterros.

Distribuição

Regiões tropicais da América. Exótica naturalizada por todo o país.

Época de floração

Junho a Outubro

Estatuto de protecção

Nenhum

Alguns locais de observação

- Entulhos e aterros de obras por todo o país


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