Scorzonera hispanica crispatula
© Miguel Porto  
Scorzonera hispanica crispatula
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Scorzonera hispanica crispatula
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Scorzonera hispanica L. var. crispatula DC. (Scorzonera crispatula (Boiss.) Boiss.)

Asteraceae

Miguel Porto

«As esferas flutuando nas searas»

Não podia acreditar quando me aproximei do capítulo pela primeira vez. Um aroma sem igual, uma mistura de baunilha e canela nas proporções certas, e talvez mais algumas fragrâncias que nem o mais experiente saberia identificar. Tudo isto num perfume uno, intenso; num capítulo de Scorzonera crispatula, meio do Alentejo seco.

Quantas vezes eu já tinha passado pela página 512 da Nova Flora de Portugal Vol.II e me perguntado «mas onde é que anda esta planta? Deve ser uma planta estranha - e plantas estranhas estão em sítios estranhos!»

O sítio era estranho. Suspeitei logo disso quando devaneava pela fotografia aérea há uns anos. Um padrão totalmente diferente da envolvente, que ninguém conseguira cultivar, uma terra imprestável certamente. O sítio ideal para surpreender. Algum tipo de mato misterioso havia de estar ali.

A primeira viagem ao terreno «pôs logo os pontos nos iis»: um granito preto, uma terra barrenta, rija, inútil. No mato, uma combinação invulgar de plantas; por um lado lembrava um mato calcícola de carrasco, mas por outro... aqui muita coisa estranha medrava, e fomos percebendo isso em todos os passos.

Fomos, voltámos, fomos, voltámos,...

Um dia, a resposta estava ali: à nossa frente, a página 512. Uma planta pujante, de caules grossos e decididamente erectos, encimados por um capítulo enorme de flores amarelas de centros pretos. Estava habituado a compostas mais humildes - sem dúvida que os cardos são compostas e são tudo menos humildes, mas os cardos são rudes - esta não, esta consegue conciliar a delicadeza de um dente-de-leão com a robustez quase de uma alcachofra. Mas o mais fantástico de tudo é o aroma que exala, e que leva uma pessoa a fechar os olhos e a escrever devaneios como este. Só conheço mais uma planta em Portugal com semelhante aroma - uma orquídea raríssima apenas conhecida no Gerês, a Gymnadenia conopsea, que também eleva o observador através de um aroma abaunilhado e doce. Sem desprimor desta orquídea belíssima, a Scorzonera crispatula, para mim, detém o título do melhor aroma que podemos encontrar em Portugal. E precisaria de lá voltar muitas mais vezes para o entender melhor, pausadamente.

Scorzonera hispanica crispatula
© Miguel Porto  
Scorzonera hispanica crispatula
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O nome da espécie - S.crispatula - é alusivo à forma das folhas, que não podia deixar de ser também muito estranha, um enredado de lacínias sem ordem; cada lacínia, ao invés de se emancipar da folha a direito, muda rapidamente de ângulo, dobra-se, enrola-se, enreda-se numa carapinha crespa e confusa, uma cabeça de medusa empolgada. Mas nem todas; esta forma é extremamente variável de indivíduo para indivíduo, e mesmo dentro da mesma planta. Algumas plantas chegam a ter folhas inteiras, aparentemente normais. Nos casos mais graves, esta estranha forma dá à planta um aspecto alienígena, e eu pergunto que pressão de selecção terá levado a tamanho «disparate» no recorte de uma folha? E porque é tão variável? E porque mais nenhuma planta em Portugal tem uma folha assim? E no mundo, quantas terão? Não me ocorre nenhuma para já.

É uma planta que aparece pelo Alentejo de uma forma mais ou menos pontual, em solos barrentos e/ou calcários, no entanto, onde existe, é localmente abundante. Marca uma diferença. Não a vamos encontrar nos extensos montados e prados que cobrem grande parte do Alentejo, vamos sim encontrá-la em pequenas ilhas geológicas, afloramentos que por vezes irrompem na paisagem, outras vezes nem irrompem, apenas se insinuam através de uma flora diferente. Granitos principalmente, talvez calcários em menor escala.

E, no entanto, S.crispatula é somente uma das variedades de S.hispanica, planta cultivada como legume na Europa, da qual se consome a raiz preta e comprida.

Falo também um pouco do género Scorzonera. Todas as Scorzonera são estranhas e não surgem à nossa frente logo na primeira saída de campo. É um género fascinante, mas não consigo explicar porquê, talvez porque não o percebo. São plantas de aspecto graminóide (tal como o género afim Tragopogon) devido às folhas quase sempre compridas e muito estreitas - e também aos capítulos, que são esguios e confundem-se com a erva se estiverem fechados (quase sempre). A época mais fácil para topar Scorzonera é no Verão, quando os frutos amadurecem e os capítulos, antes esguios, abrem totalmente numa esfera creme de papilhos plumosos, por vezes de grandes dimensões. É uma visão muito característica no Alentejo interior, as «esferas flutuando nas searas», que geralmente correspondem a S.laciniata. Algumas espécies são bastante raras no território português, mas na verdade nenhuma Scorzonera se pode dizer frequente.


2 de Janeiro de 2011


sinopse técnica

Ecologia

Solos argilosos, um tanto calcícolas, em clareiras de matos e pousios.

Distribuição

Região mediterrânica e euroasiática

Época de floração

Abril a Julho

Estatuto de protecção

Nenhum

Alguns locais de observação

- Solos em afloramentos graníticos na região de Serpa e Odivelas


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