Samolus valerandi
© Ana Júlia Pereira  
Samolus valerandi
© Miguel Porto  
Samolus valerandi
© Ana Júlia Pereira  

 

Samolus valerandi L.

Primulaceae | alfacinha-do-rio

Manuel José Fernandes

É uma planta comum em estuários e outros ambientes húmidos e salobros. Há que procurá-la durante o Verão, quando floresce, pois de outro modo passa despercebida. As suas minúsculas flores brancas, levantadas num frágil cacho, são tudo quanto possui para nos chamar a atenção. Apesar das insistentes referências à ocorrência desta planta, só a conhecia de a ver mencionada em listas de espécies e representada em livros. Mas poderei chamar a isso conhecer?

Encontrei-a uma noite destas, agigantada, com flores do tamanho de punhos fechados, de um branco faiscante. Apesar de disforme, não hesitei em reconhecê-la: aqui estás, Samolus valerandi, até que enfim!

Samolus valerandi
© Manuel José Fernandes  

Quando acordei, um único impulso me tomou, apesar do calor extremo do dia: procurá-la no sítio mais à mão, a junqueira do Coura próximo de Caminha, onde tinha andado em pleno Inverno a registar plantas adormecidas. Quase como no sonho, ali estava ela à minha espera, multiplicada numa pequena população em flor, enraizada na vasa e nas paredes do antigo valado que atravessa a junqueira, à sombra dos caniços e das austrálias. Só estando ali se percebe o que não vem nos livros: que aquele milagre de delicadeza tem firmeza suficiente para suportar duas vezes por dia a submersão pela água da maré (pode mesmo apreciar-se o efeito da tensão superficial da água à medida que os cachos erectos vão sendo submersos). Um implacável vai-vem que liga esta humilde planta á força gravítica da Lua.

Creio que não foi um acaso que me levou até lá, embora não saiba bem o que foi. Antes de sair dali, uma restolhada súbita pôs-me alerta: viria alguém pelo valado fora, naquele sítio de tão difícil acesso? Uma pessoa? Um cão? Uma cabeça castanha espreitou do outro lado do tronco da árvore a que estava encostado: focinho escuro, longos bigodes, olhos salientes. Ali estava uma lontra a olhar tranquilamente para mim. Mergulhou, reapareceu, continuou a olhar para mim, mergulhou de novo e foi à sua vida.

Compreendi que por vezes a realidade pode ultrapassar os sonhos. Fiquei certo de que na junqueira do Coura ainda está (quase) tudo por descobrir.


11 de Agosto de 2010


sinopse técnica

Ecologia

Zonas húmidas (permanentes ou temporárias), taludes e arribas com escorrência de água, juncais, tolerando águas salobras e zonas sujeitas a salsugem

Distribuição

Ásia e Europa, introduzida na América

Época de floração

Junho a Outubro

Estatuto de protecção

Nenhum

Alguns locais de observação

- Arribas marítimas com escorrência de água na costa de Sintra

- Mesmo habitat na costa sudoeste


© SPB