Tuberaria major
© André Carapeto  
Tuberaria major
© Ana Júlia Pereira  
Tuberaria major
© André Carapeto  

 

Tuberaria major (Willk.) P.Silva & Rozeira

Cistaceae | alcar-do-algarve

Luís Brás

Apesar de ter sido identificada pela primeira vez em finais do século XIX, por J.P. Perez e A. Moller, nos arredores de Faro, esta espécie da família das Cistáceas apenas viria a ser reconhecida como tal na década de 1990, primeiro como uma subespécie - Xolantha globulariifolia subsp. major, e só mais tarde como uma espécie por direito próprio - a Tuberaria major (Alcar-do-Algarve).

Endémica do território português, onde ocorre exclusivamente no Algarve, esta espécie está classificada como “Em Perigo Crítico”, em grande medida devido à sua distribuição geográfica muito reduzida, a qual se limita à faixa litoral do centro do Algarve, entre os concelhos de Albufeira e Olhão, e à zona de Algoz - no barrocal. A sua população encontra-se actualmente muito fragmentada, ocorrendo exclusivamente em solos areníticos ou cascalhentos ácidos, sobretudo em clareiras de matos xerófilos.

Parente afastada das estevas, esta planta da família das Cistáceas caracteriza-se por apresentar uma curiosa distribuição das suas folhas basais, as quais adquirem a forma de uma roseta ao nível do solo. E aqui é que localizam precisamente as gemas que permitem a sua renovação anual, a qual dá origem a uma estrutura lenhosa ramificada (toiça), facto que dificulta muitas vezes a observação individualizada das plantas.

Apesar de relativamente discreta durante grande parte do ano, é no início da Primavera que esta planta ganha nova vida aquando da sua floração, a qual ocorre no final da Primavera, entre Abril e Maio. Das suas folhas em roseta surgem por essa altura vários escapes florais, dos quais emergem belíssimas flores de cinco pétalas amarelas ornamentadas na base por uma mácula negra. É então que tem início um espectáculo único. Apenas por um único dia (!!), as flores desabrocham, ao início do dia, permanecendo abertas apenas durante algumas efémeras horas, deixando cair as suas pétalas á medida que o dia passa. Sem dúvida, um espectáculo notável da natureza, a não perder. Uma curiosidade: as minúsculas sementes da T. major precisam de elevadas temperaturas para germinarem, garantido a sua viabilidade mesmo a 80 ºC!!

Pela sua raridade e especificidade do habitat a Tuberaria major é uma espécie botânica protegida a nível europeu e internacional, quer pela Directiva Comunitária Habitats, quer pela Convenção de Berna, estando ainda incluída na Red List (Livro Vermelho) da IUCN, super- estatuto que levou a que nível comunitário a T. major fosse classificado como uma espécie prioritária para a conservação. Apesar disso, é actualmente reconhecido que a espécie não se encontra devidamente representada na lista de Sítios indiciados por Portugal para integrar a Rede Natura 2000.

Apesar da T. major apresentar actualmente um efectivo populacional estável, a redução drástica que se vem verificando da sua área de distribuição, com a consequente perda e fragmentação de habitat favorável, em grande parte fruto da pressão urbanística que se faz sentir no litoral algarvio, fazem temer pelo futuro desta espécie. A curto prazo é pois urgente a tomada de medidas com vista a preservação e gestão do seu habitat, de forma a garantir à sua conservação in situ, bem como o seu pool genético, sob pena de num futuro próximo apenas podermos admirar a Tuberaria major em jardins (botânicos ou outros) ou em herbários.


Bibliografia consultada

Almargem. 2001. Pela Inclusão do Pontal na Rede Natura 2000. Queixa dirigida à Comissão das Comunidades Europeias por não Cumprimento pelo Estado Português do Decreto Comunitário Relativo à Protecção de Habitats e Espécies Prioritárias. Almargem - Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve, Loulé. Pp. 19.

Brás, L.. 2009. Tuberaria major: onde estão e quantas são. Comunicação oral. Seminário “Conservação e Gestão do Endemismo Alcar-do-Algarve”, Centro de Desenvolvimento de Ciências e Técnicas de Produção Vegetal da Universidade do Algarve. Faro; 25 de Março de 2009.

ICNB. 2006. Proposta de Plano Sectorial da Rede Natura 2000 Vol. II Valores Naturais. Fichas de caracterização ecológica e de gestão: habitats naturais e espécies da flora e fauna; Instituto da Conservação da Natureza; Lisboa

Meireles C. 2004. Caracterização da Flora e Vegetação do Parque Natural da Ria Formosa. Estudos de Caracterização para a Revisão do Plano de Ordenamento do PNRF. Instituto da Conservação da Natureza. Parque Natural da Ria Formosa. Olhão. Pp. 176.


8 de Junho de 2010

Associação Almargem


sinopse técnica

Ecologia

Ocorre em solos areníticos ou cascalhentos ácidos, sobretudo nas clareiras (espécie heliófila) de matos xerófilos.

Distribuição

Portugal Continental, exclusivamente no Sul do Algarve, no litoral, entre Albufeira a Olhão, e no Barrocal

Época de floração

Abril a Junho

Estatuto de protecção

Convenção de Berna, relativa à Conservação da Vida Selvagem e do Meio Natural na Europa - Anexo I, Directiva Habitats (92/43/CEE), do Conselho, de 21 de Maio - Anexos II e IV, relativa à conservação dos habitats naturais, da fauna e da flora selvagens

Alguns locais de observação

- Pinhais litorais do extremo ocidental do Parque Natural da Ria Formosa (PNRF)


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