Crepis pusilla
© Miguel Porto  
Crepis pusilla
© Miguel Porto  
Crepis pusilla
© Miguel Porto  

 

Crepis pusilla (Sommier) Merxmüller

Asteraceae (Compositae)

Miguel Porto

É uma planta estranha. Em vários aspectos.

As outras Crepis portuguesas, que se distribuem por cinco espécies, são plantas «normais»: folhas, caule, flores, frutos, tudo em tamanho regular, nada de especial a assinalar. Não esta. Esta optou pela miniaturização: reduziu-se em todas as partes do seu corpo e ainda perdeu totalmente o seu caule.

Toda a planta não passa de uma roseta de folhas, com não mais do que 3 a 4 cm de diâmetro, efémera, que, em chegando o tempo seco, rapidamente floresce e desaparece. Mas a flor, muito pequena e sem cor, não se atreve a ultrapassar o nível do solo, aparece no centro da roseta, um pouco abaixo da superfície, escondida no meio das folhas. Na verdade, toda a planta teme em erguer qualquer parte do corpo acima da superfície do solo a menos que a competição com os seus vizinhos assim o justifique. Caso contrário, todas as suas folhas estão calmamente deitadas sobre o solo, e a planta passa toda a sua vida a uma altitude máxima de 3 mm sobre ele. E pode descansar calmamente, porque com esta estratégia não há que entrar em sobressalto caso se aproxime um rebanho de ovelhas ou qualquer outro mamífero pouco cuidadoso - tudo o que importa, especialmente as flores, está bem protegido entre as pedras e rugosidades do solo.

Mas mais do que não se importar, a planta beneficia deste pisoteio em devida época e se for moderado, para dispersar os seus frutos mais longe, e não só: também para ajudar a eliminar a competição com outras plantas que facilmente lhe toldariam o sol. Não tendo qualquer capacidade competitiva devido ao seu porte diminuto, é empurrada para locais abertos, com muito pouco solo, onde outras plantas maiores têm dificuldades em crescer. São locais onde a vida é necessariamente efémera devido às flutuações rápidas dos recursos hídricos, que muito cedo no ano desaparecem, tudo é transitório; e todos os seus companheiros de profissão (outras plantas diminutas como Aphanes spp., Veronica arvensis, Galium murale, Crassula tillaea, Soliva stolonifera) sabem isso bem, explorando, cada um à sua maneira, este mundo em miniatura.

Não é estranha, pois, a ecologia desta planta, que se encontra sobretudo em locais algo pisoteados, às vezes margens de caminhos, onde só espécies em miniatura como ela sobrevivem. O que é realmente estranho é que esta planta é extremamente rara! Em todo o Portugal, apenas é conhecida na Serra da Arrábida e arredores de Lisboa, e cobre uma área mínima do território, cada colónia não ocupando mais de 1 m2.

Para completar o cenário, a sua distribuição geográfica é bizarra: a planta nunca foi encontrada em Espanha continental. O próximo local de ocorrência relativamente às populações portuguesas é em Palma de Maiorca, e seguidamente Sicília, Malta, Chipre, Grécia... principalmente nas ilhas. Como foi então aparecer aqui, tão longe das ilhas do mediterrâneo que tanto aprecia? E porquê sempre em colónias tão pequenas? Está claro que gosta de locais muito quentes e muito secos, mas ainda há muito para perceber da sua ecologia e distribuição.

É de facto uma planta mal conhecida. Tem estatuto de protecção legal, mas em geral desconhece-se o grau da sua vulnerabilidade. Talvez por se saber tão pouco sobre ela, é também uma planta muito pouco falada quando se fala de Conservação.

Fica um apelo ao leitor - viu esta planta? Comunique. Plantas como esta merecem ser mais conhecidas, cartografadas, protegidas. Antes que desapareçam sem darmos por isso, debaixo de um monte de entulho como quase aconteceu a esta colónia aqui fotografada.


15 de Abril de 2010


sinopse técnica

Ecologia

Relvados efémeros em margens de caminhos e orlas de matos, sobre solos argilosos.

Distribuição

Em Portugal, Serra da Arrábida e arredores de Lisboa. Ilhas mediterrânicas e Grécia.

Época de floração

Março-Abril

Estatuto de protecção

Anexo II da Directiva Habitats

Alguns locais de observação

- Terras do Risco (Serra da Arrábida)


© SPB