


Porquê Ceratocapnos heterocarpa?
Musgos, rochas húmidas, bosques sombrios, zambujeiros, vertentes íngremes, matagais, afloramentos, Alentejo profundo.
Pressa, muita pressa porque o Verão vem aí e as folhas - finíssimas - dessecam ao menor calor.
Planta grácil, quem diria, numa região destas onde nem as estevas resistem aos verões mais rigorosos. Este é Ceratocapnos heterocarpa, uma trepadeira anual da família das papoilas, pequena, frágil, delgada, que aparece aqui mas não ali, ou ali mas não aqui ou - em regra - nem aqui nem ali. De facto é uma espécie rara, muito rara, que na Península Ibérica apenas surge pontualmente no sul, em muito poucos locais. Em Portugal, ao que parece, só em três sítios.
A delicadeza felina de toda a planta não tem paralelo, parece que todas as suas curvas foram pensadas cuidadosamente para não molestar o olhar, e as suas cores, que lembram os outonos norte-americanos. A folha tem uma forma singular, que só mais uma espécie portuguesa apresenta, é uma folha apedada - «Com duas nervuras divergentes, saídas do pecíolo, cada uma das quais se ramifica em símpodo escorpióide (ramos de ordem sucessiva solitários e todos para o mesmo lado).»
Os frutos são de duas formas, que servem dois métodos de dispersão diferentes, daí o seu nome específico heterocarpa.
Toda a planta é fina. Um mês depois do fruto, já não existem quaisquer restos que provem a sua existência.
Ainda assim, não se fala muito nesta planta, ou nada; ou talvez por isso mesmo. Talvez nos passe despercebida tal como tem passado despercebida a todos os Julhos e Agostos que houve em Portugal, meses que nunca a viram.
Não poderia deixar de falar nas suas gavinhas de curvas ligeiras, visão estranha sobre os espinhos rectos dos espargos; um enredado que quase iguala em suavidade uma teia de aranha.
31 de Agosto de 2009
Sob bosques, sobre rochas sombrias
Sul da Península Ibérica, Marrocos e Argélia
Abril a Maio


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